Páginas

Sonhar é preciso, nem que for sonho de padaria...

Nem uma coisa nem outra, o que há entre elas é o que me encanta

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Nas asas das borboletas escrevi este Poeminha:

Nesta arena fecunda, degladiam-se as ervas,os insetos,
as flores e os dejetos. As larvas e os aromas, as dores
e seus sintomas... Travam lá, uma luta incessante,
entre o já e o que não foi, entre o que foi e o que é.

criaturas se esbanjam de sol no tapeta da grama
e se espalharem na terra e na lama em uma busca aflita
por algo que ninguém compreende por inteiro,
mas que sentem necessário.

O ir e o vir, o eu e o ti, o duo e a lida, devem ser
o campo onde a vida se faz ou onde se pode fazer algo
como vida...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Na era pós-moderna, na modernidade tardia, quem é quem? o que é o quê?

Vejo uma crescente desresponsabilização tomando conta do nosso tempo e dos nossos sujeitos. Sujeitos estes que parecem não ocupar outra plataforma, senão a do consumo. E consumindo, consomem-se.

Neste tempo complexo, onde imperam a economia e o mercado, a pessoa fica de lado,a mídia ganha asas e torna-se nossa religião.
A imagem se configura passo a passo e todo corpo é um só.
Toda tela nos revela e a novela que era nossa distração, distrai nossa atenção.

O trânsito ganha vida e é ele mesmo o culpado pelo engarrafamento. A economia é sensível aos abalos do mercado que tem humor, ora está calmo e tem até sentimentos.

Pessoas se coisificando, se androgenando.
Coisas e fenômenos se personalizando...

domingo, 11 de outubro de 2009

ESPERA

Queria dizer que tô te esperando,
mas tá frio aqui na estação,
com esse vento todo e sentada nesse banco de cimento gelado.

Tá certo que vez em quando
você dá uma decidinha do trem,fecha as janelas da estação
e me empresta algum cobertor...
assim quando eu acho que não aguento mais,
decido ficar e esperar por esse trem que te traga um dia
ou pra me buscar ou pra descer de vez na minha estação...

Minhas malas estão prontas e eu,
muitas vezes não sei o que fazer com elas.
Muitas vezes as abro e confiro o conteúdo,
outras tantas dou uma esvaziada.
Ando mais leve assim,

Mas na maioria do tempo, reconheço a companhia que elas me fazem...

EU TE PROCURO

Eu te procuro no trânsito parado, no trem lotado,
E no ponto deste ônibus que nunca vem,
Te procuro ainda, nos passos largos das pessoas apressadas
Nos olhares perdidos pelas calçadas
Te procuro risos tímidos de estranhos e em todo alguém (...)

ERA SIM JÁ PRIMAVERA

Era sim já primavera, a estação mais equilibrada do ano. Também a mais perfumada e a mais musical. Nela é quase tudo flores, cantos e respiros... disse quase, porque hoje em especial, saí na rua e vi um cinza gelado, nuvens e chuviscos a inflamar meus ouvidos e a pressionar meu peito que num suspiro, -mais de resistência que de esperança-, não queria acreditar naquele dia de inverno em plena primavera...
Porque duvidei do frio, tive que enfrentá-lo pele a pele.
Porque esperei demais da primavera, tive uma surpresa ingrata: o sol não deu o ar da graça.
Ainda assim, me embrulhei quase de corpo inteiro no cachecol que levei comigo só por distração e desci avenida abaixo na tentativa de aquecer meu corpo... até que deu certo.
Aos poucos, senti um calorzinho me envolver e o ventinho que entrava pelos vãos de minhas roupas já nem incomodava tanto. Foi assim quase a avenida toda, quando, de tanto apressar os passos, percebi um desconforto em meu pé direito –logo o direito, saco!-.
Esqueci de dizer que eu usava meias neste dia. É, quer dizer, era mais metade de meia. Sabe aquela meia que só cobre o peito e o calcanhar do pé? Pois é, uma “meia-meia”. Então, estava usando esta meia e acho que de tanto andar rápido, a meia do meu pé direito começou a sair, aos poucos, assim, meio que disfarçadamente. Por debaixo do tênis, eu sentia seu movimento, lento, mas efetivo em meu pé. Parecia que a qualquer momento ela iria se embolotar na ponta do tênis e eu seria obrigada a parar ali, já quase na estação do metrô pra tirar o tênis e arruma-la. Ela já tinha ultrapassado os limites da sola e já se dirigia ao meio do pé.
Já estava subindo a rampa quando o desconforto foi ficando maior e ao descer a escada rolante senti que seria ali mesmo. Meu Deus, que sofrimento!
Cheguei à plataforma e arrisquei soltar o nó do cadarço pra tentar arrumar a meia ali mesmo, sem nem ligar pros olhares alheios. Num golpe de mestre, consegui me livrar de todo o material, deixei-o todo no braço esquerdo, levantei a perna, apoiei ali nas ferragens da plataforma e consegui puxar uma ponta do cadarço. Mal puxei, e o metrô já se aproximou. Num desespero bem maior do que anterior, imediatamente amarrei novamente o tênis e entrei no metrô como se nada tivesse acontecido.
Por sorte consegui um lugar pra sentar e aí, o alívio foi tanto por estar aquecida e confortavelmente acomodada, que coloquei todo o material no colo e nem percebi mais que estava de meias.
Por algumas estações estava protegida. Soltei meu corpo no banco, fechei os olhos e resolvi seguir viagem sem pensar nem reclamar.

DELÍRIOS EM FLOR

Pensei em tirar férias de mim
e pousar em ti meus muitos sonhos,
meus tantos delírios ainda em flor.

Quis atravessar o portal
e manifestar em teu quintal meu jardim inteiro,
minha alfazema -inspiração de meu poema-
o aroma sutil de meu quase amor.

Um sentimento todo só existe de duas partes inteiras,
a que mora em minha varanda e a que vive no peito seu,
Adormeço agora então, nesta parte que te espera.
Vezes vida, outras quimera,
eternamente EU

domingo, 26 de julho de 2009

Ensaio sobre comunicação e solidão (inconcluso)

O mais profundo é a pele
Paul Valéry



Debaixo da pele o corpo é uma fábrica de ferver
Antonin Artaud


Toda comunicação humana começa e termina no corpo
Harry Pross





Acabei de ler um ensaio no qual Maturana (1999) dizia que o emocionar e o linguajar, anteriores à espécie humana são características de nossa humanização e que a emoção e a conversação são, portanto, os componentes do homem como sistema nervoso desenvolvido e de sociedade como solução de sobrevivência do humano.
O mesmo Maturana define conversação como “um dar voltas juntos de tal forma que todos os participantes passem por mudanças estruturais não triviais até que um homomorfismo comportamental seja estabelecido e a comunicação ocorra”.
Duas linhas abaixo, vejo então, o que eu gostaria de ter escrito, nas palavras do nosso Paulo Freire. Disse ele que as relações pessoais estendem e amarram a emoção, a conversação e o pensamento ao sujeito e à própria humanização, pois, “O sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a co-participação de outros sujeitos no ato de pensar um objeto” e que esta co-participação se dá na comunicação.
Num abrir e fechar de olhos, quase instantâneo, deparei-me comigo, aqui, em pleno século XXI, na efervescência incontestável da comunicação e neste ir e vir, decidi divagar e co-pensar: em que pé estão as relações pessoais hoje? Como as pessoas conversam, se comunicam, se relacionam, enfim?
A primeira idéia que me vem é a de que atualmente sofremos ou gozamos de uma abundância, um excesso de comunicação, proveniente obviamente da fartura de mediadores tecnológicos e suas irresistíveis ferramentas.
Tornou-se muito fácil e muito cômodo encontrar pessoas, lugares e falas, até há bem pouco tempo muito distantes de nossos contextos individuais. Paradoxalmente a estes encontros, no entanto, parece que o fomento a estas buscas tornou-se uma pista do que começo a perceber como uma possível ou até mesmo, visível escassez de percepção de si e do outro, uma vez que parece que nem mais preciso de uma pessoa física, de sentidos e olhares para me relacionar.
Inicia-se, desse modo, uma corrida maluca por atenção, por um carinho, por um trato, por um olhar qualquer em uma estrada dupla: com atalhados virtuais e com caminhos reais. É óbvio que um está no outro, no entanto, parece que a opção pelo contato virtual tornou-se algo mais próximo, imediato e por isso, ‘hoje’, aparentemente mais real. Talvez porque seja esta, a realidade que por já estar pronta, mais se aproxime do ‘olhar’, também ‘pronto’ deste nosso século.
A questão é que, com olhares e mundos já conclusos, resta-me apenas, a adequação e com os olhos destreinados, corro o risco de cegar. Assim, porque já estou acostumado a aceitar ou deletar, a pessoa a meu lado (aquela com quem eu converso até mesmo para ligar o computador ou fazer a manutenção) tornou-se menos importante, dispensável até.
Então, começo minha viagem pelos links todos e pelos chats e pelos sites de relacionamentos, enquanto não percebo que procuro incansavelmente por um “outro” que me toque, que me veja, que me saiba e o que era para ser o “mediador” desta minha busca, passa a ser o “objeto” da relação estabelecida.
Essa corrida desenfreada por alteridade revela, a meu ver, o quanto ausente estamos de nós e o quanto precisamos nos achar, nos relacionar, e ainda, o quanto esquecemos que isso só é possível com um espelho que nos reflita, com um outro que nos revele e que nos faça existir, mesmo que não fale nossa língua, nosso idioma, mas que fale, se expresse, se sinta e que se veja em minha imagem refletida, também o espelho de sua existência.