O mais profundo é a pele
Paul Valéry
Debaixo da pele o corpo é uma fábrica de ferver
Antonin Artaud
Toda comunicação humana começa e termina no corpo
Harry Pross
Acabei de ler um ensaio no qual Maturana (1999) dizia que o emocionar e o linguajar, anteriores à espécie humana são características de nossa humanização e que a emoção e a conversação são, portanto, os componentes do homem como sistema nervoso desenvolvido e de sociedade como solução de sobrevivência do humano.
O mesmo Maturana define conversação como “um dar voltas juntos de tal forma que todos os participantes passem por mudanças estruturais não triviais até que um homomorfismo comportamental seja estabelecido e a comunicação ocorra”.
Duas linhas abaixo, vejo então, o que eu gostaria de ter escrito, nas palavras do nosso Paulo Freire. Disse ele que as relações pessoais estendem e amarram a emoção, a conversação e o pensamento ao sujeito e à própria humanização, pois, “O sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a co-participação de outros sujeitos no ato de pensar um objeto” e que esta co-participação se dá na comunicação.
Num abrir e fechar de olhos, quase instantâneo, deparei-me comigo, aqui, em pleno século XXI, na efervescência incontestável da comunicação e neste ir e vir, decidi divagar e co-pensar: em que pé estão as relações pessoais hoje? Como as pessoas conversam, se comunicam, se relacionam, enfim?
A primeira idéia que me vem é a de que atualmente sofremos ou gozamos de uma abundância, um excesso de comunicação, proveniente obviamente da fartura de mediadores tecnológicos e suas irresistíveis ferramentas.
Tornou-se muito fácil e muito cômodo encontrar pessoas, lugares e falas, até há bem pouco tempo muito distantes de nossos contextos individuais. Paradoxalmente a estes encontros, no entanto, parece que o fomento a estas buscas tornou-se uma pista do que começo a perceber como uma possível ou até mesmo, visível escassez de percepção de si e do outro, uma vez que parece que nem mais preciso de uma pessoa física, de sentidos e olhares para me relacionar.
Inicia-se, desse modo, uma corrida maluca por atenção, por um carinho, por um trato, por um olhar qualquer em uma estrada dupla: com atalhados virtuais e com caminhos reais. É óbvio que um está no outro, no entanto, parece que a opção pelo contato virtual tornou-se algo mais próximo, imediato e por isso, ‘hoje’, aparentemente mais real. Talvez porque seja esta, a realidade que por já estar pronta, mais se aproxime do ‘olhar’, também ‘pronto’ deste nosso século.
A questão é que, com olhares e mundos já conclusos, resta-me apenas, a adequação e com os olhos destreinados, corro o risco de cegar. Assim, porque já estou acostumado a aceitar ou deletar, a pessoa a meu lado (aquela com quem eu converso até mesmo para ligar o computador ou fazer a manutenção) tornou-se menos importante, dispensável até.
Então, começo minha viagem pelos links todos e pelos chats e pelos sites de relacionamentos, enquanto não percebo que procuro incansavelmente por um “outro” que me toque, que me veja, que me saiba e o que era para ser o “mediador” desta minha busca, passa a ser o “objeto” da relação estabelecida.
Essa corrida desenfreada por alteridade revela, a meu ver, o quanto ausente estamos de nós e o quanto precisamos nos achar, nos relacionar, e ainda, o quanto esquecemos que isso só é possível com um espelho que nos reflita, com um outro que nos revele e que nos faça existir, mesmo que não fale nossa língua, nosso idioma, mas que fale, se expresse, se sinta e que se veja em minha imagem refletida, também o espelho de sua existência.
A vida, via de mão dupla, em seus atalhos e desvios, descaminhos e rodopios, simplesmente vai... jamais em vão!!!
Páginas
Sonhar é preciso, nem que for sonho de padaria...
Nem uma coisa nem outra, o que há entre elas é o que me encanta
domingo, 26 de julho de 2009
quinta-feira, 7 de maio de 2009
O POEMA QUE ESCREVI
Preciso te contar do poema que escrevi
Que na madrugada de sábado
Não foi só de lágrima e solidão
Antes um apelo à mulher em mim
Que nessa madrugada deu-me a mão
Preciso te apagar inteiro pra me desapaixonar,
Preciso me fugir de ti, bem longe de todo lugar
Num cantinho qualquer ficar a sós
Viajar para longe da gente e numa xícara
De chocolate quente desatar os nós
Me deixar ficar inteira numa canção
fugir pra um fim de rua, num chalé afastado
Pra Europa, outra casa, outro portão
Outro chat qualquer, outra música enfim...
De carro, ônibus, avião, outra mulher em mim...
Nem mais nome, nem número, te apaguei do celular
Nem mais fome, nem mais medo, hoje vim pra ficar
Parece feio falar do fim, assim,
Mas preciso te contar do poema que escrevi,
Nem pra você, nem pra mim, só pra aguentar
Tudo o que antes era tanto, e hoje apenas uma carta lida
Tanto o que era tudo, e agora apenas uma lágrima solta
Irreconhecida
Antes um presente incerto que uma lembrança acesa
De um passado que por medo não se pôs à mesa.
A lembrança de hoje é o que foi feito do ontem
E o que foi feito de mim e de ti nessa estrada?
É isso que minha poesia torta quer dizer
Quer gritar, quer cantar, quer entrar
Ser bem vinda, mas não só pra você
É que eu te apaguei do celular
e não tenho nem malas pra fazer
E agora que só falta esquecer
Vou lacrar a caixa das lembranças,
Pois ainda não tenho coragem de queimar...
domingo, 3 de maio de 2009
A MULHER CAMINHA
A mulher caminha, olha pro alto, pros lados e se inspira,
Olha ao redor, pra dentro, pra baixo e continua...
Respira fundo, pensa duas vezes, treina paciência...
Dialoga com o comum, com o cosmo, com a ciência,
resiste, alegre ou triste,às vezes incerta,
para pra pensar melhor, pede opinião, treina intuição...
A mulher caminha, quase sempre acompanhada de solidão
Às vezes nem quer... cansa de sangrar...
quer pedir pra descer,pra ficar,pra desistir
Mas o mundo todo finge não ouvir
Em seus ombros, então, o peso de um Hércules,
Em seu ventre agora, o futuro de uma geração inteira,
A mulher caminha, querendo ser apenas uma mulher, como todas
Do mesmo modo que o homem é apenas um homem, como muitos.
Olha ao redor, pra dentro, pra baixo e continua...
Respira fundo, pensa duas vezes, treina paciência...
Dialoga com o comum, com o cosmo, com a ciência,
resiste, alegre ou triste,às vezes incerta,
para pra pensar melhor, pede opinião, treina intuição...
A mulher caminha, quase sempre acompanhada de solidão
Às vezes nem quer... cansa de sangrar...
quer pedir pra descer,pra ficar,pra desistir
Mas o mundo todo finge não ouvir
Em seus ombros, então, o peso de um Hércules,
Em seu ventre agora, o futuro de uma geração inteira,
A mulher caminha, querendo ser apenas uma mulher, como todas
Do mesmo modo que o homem é apenas um homem, como muitos.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
LUA só LUA
Todas as luzes da casa estão acesas,
e a lua, solitária no céu, também se acendeu.
Não há como ignorá-la, brilhando sozinha
no azul marinho (quase preto) do céu,
Envolta em um gigantesco papel de seda
acostumado a abraçar maçãs,
a pequenina bolinha de ping-pong se aconchega
no colo imenso de ponta-cabeça
e faz questão de que não me esqueça
de nossa natureza de enxergar pouco
Em vez de fruta, um astro.
No lugar de um aroma, uma auréola, quase uma pérola.
No cantinho do meu jardim, a lua nua me aparece assim,
De surpresa, quietinha, impressa no espaço do mundo e no espaço meu
Grifa no céu uns versos misturados e com um branco quase calado
Embala os bons olhos na alma poética dos braços de Orfeu.
e a lua, solitária no céu, também se acendeu.
Não há como ignorá-la, brilhando sozinha
no azul marinho (quase preto) do céu,
Envolta em um gigantesco papel de seda
acostumado a abraçar maçãs,
a pequenina bolinha de ping-pong se aconchega
no colo imenso de ponta-cabeça
e faz questão de que não me esqueça
de nossa natureza de enxergar pouco
Em vez de fruta, um astro.
No lugar de um aroma, uma auréola, quase uma pérola.
No cantinho do meu jardim, a lua nua me aparece assim,
De surpresa, quietinha, impressa no espaço do mundo e no espaço meu
Grifa no céu uns versos misturados e com um branco quase calado
Embala os bons olhos na alma poética dos braços de Orfeu.
domingo, 29 de março de 2009
E naquele dia...
E naquele dia que era dia de festa, entrou na livraria mais impessoal que encontrou, escolheu entre tantos, o romance de sua vida e mandou a balconista embrulhar pra presente.
Um papel dourado encheu-lhe os olhos aflitos e curiosos.
Caminhou até a cafeteria, confortou-se no abraço metálico da cadeira, cruzou as pernas e acompanhada de si, olhou para a xícara quente enquanto elegantemente despia o único presente que ganhara na vida.
Talvez fossem aquelas páginas o único e verdadeiro trato de atenção que experimentara e aquele café o único ser que realmente se importava.............
Um papel dourado encheu-lhe os olhos aflitos e curiosos.
Caminhou até a cafeteria, confortou-se no abraço metálico da cadeira, cruzou as pernas e acompanhada de si, olhou para a xícara quente enquanto elegantemente despia o único presente que ganhara na vida.
Talvez fossem aquelas páginas o único e verdadeiro trato de atenção que experimentara e aquele café o único ser que realmente se importava.............
PEDRA CORA
Houve um tempo em que valia a pena
ajuntar todas as pedras atiradas e traçar
a rota dos degraus até o pico dos sonhos floridos,
até às flores invencíveis da alma...
Nunca houve pedra que se chegasse à nudez de meu peito.
Semeava a dureza de minha escritura no vão de tudo
E todos: pedras, flores, versos se faziam,
enquanto eu me reerguia entre pedras, pedra que sou...
... E não é que este virou música!!!... O Rabicho que compôs - ficou bonita-!
ajuntar todas as pedras atiradas e traçar
a rota dos degraus até o pico dos sonhos floridos,
até às flores invencíveis da alma...
Nunca houve pedra que se chegasse à nudez de meu peito.
Semeava a dureza de minha escritura no vão de tudo
E todos: pedras, flores, versos se faziam,
enquanto eu me reerguia entre pedras, pedra que sou...
... E não é que este virou música!!!... O Rabicho que compôs - ficou bonita-!
O frio dói
O frio dói, a solidão igual
Dói na pele, dói no osso, dói em tudo
Um gole de café quente dá pra disfarçar a dor da gente
Um cobertor, um sofá, um par de meia também dá
A solidão assusta, o frio também
Assusta o outro, a mim, a você e a ninguém
Uma lareira na sala, uma fogueira no quintal esquentam igual
Uma brasa viva aquece qualquer cantinho
E a companhia perfeita é a brasa eleita pra nosso carinho
Dói na pele, dói no osso, dói em tudo
Um gole de café quente dá pra disfarçar a dor da gente
Um cobertor, um sofá, um par de meia também dá
A solidão assusta, o frio também
Assusta o outro, a mim, a você e a ninguém
Uma lareira na sala, uma fogueira no quintal esquentam igual
Uma brasa viva aquece qualquer cantinho
E a companhia perfeita é a brasa eleita pra nosso carinho
Assinar:
Postagens (Atom)