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Sonhar é preciso, nem que for sonho de padaria...

Nem uma coisa nem outra, o que há entre elas é o que me encanta

domingo, 11 de outubro de 2009

ESPERA

Queria dizer que tô te esperando,
mas tá frio aqui na estação,
com esse vento todo e sentada nesse banco de cimento gelado.

Tá certo que vez em quando
você dá uma decidinha do trem,fecha as janelas da estação
e me empresta algum cobertor...
assim quando eu acho que não aguento mais,
decido ficar e esperar por esse trem que te traga um dia
ou pra me buscar ou pra descer de vez na minha estação...

Minhas malas estão prontas e eu,
muitas vezes não sei o que fazer com elas.
Muitas vezes as abro e confiro o conteúdo,
outras tantas dou uma esvaziada.
Ando mais leve assim,

Mas na maioria do tempo, reconheço a companhia que elas me fazem...

EU TE PROCURO

Eu te procuro no trânsito parado, no trem lotado,
E no ponto deste ônibus que nunca vem,
Te procuro ainda, nos passos largos das pessoas apressadas
Nos olhares perdidos pelas calçadas
Te procuro risos tímidos de estranhos e em todo alguém (...)

ERA SIM JÁ PRIMAVERA

Era sim já primavera, a estação mais equilibrada do ano. Também a mais perfumada e a mais musical. Nela é quase tudo flores, cantos e respiros... disse quase, porque hoje em especial, saí na rua e vi um cinza gelado, nuvens e chuviscos a inflamar meus ouvidos e a pressionar meu peito que num suspiro, -mais de resistência que de esperança-, não queria acreditar naquele dia de inverno em plena primavera...
Porque duvidei do frio, tive que enfrentá-lo pele a pele.
Porque esperei demais da primavera, tive uma surpresa ingrata: o sol não deu o ar da graça.
Ainda assim, me embrulhei quase de corpo inteiro no cachecol que levei comigo só por distração e desci avenida abaixo na tentativa de aquecer meu corpo... até que deu certo.
Aos poucos, senti um calorzinho me envolver e o ventinho que entrava pelos vãos de minhas roupas já nem incomodava tanto. Foi assim quase a avenida toda, quando, de tanto apressar os passos, percebi um desconforto em meu pé direito –logo o direito, saco!-.
Esqueci de dizer que eu usava meias neste dia. É, quer dizer, era mais metade de meia. Sabe aquela meia que só cobre o peito e o calcanhar do pé? Pois é, uma “meia-meia”. Então, estava usando esta meia e acho que de tanto andar rápido, a meia do meu pé direito começou a sair, aos poucos, assim, meio que disfarçadamente. Por debaixo do tênis, eu sentia seu movimento, lento, mas efetivo em meu pé. Parecia que a qualquer momento ela iria se embolotar na ponta do tênis e eu seria obrigada a parar ali, já quase na estação do metrô pra tirar o tênis e arruma-la. Ela já tinha ultrapassado os limites da sola e já se dirigia ao meio do pé.
Já estava subindo a rampa quando o desconforto foi ficando maior e ao descer a escada rolante senti que seria ali mesmo. Meu Deus, que sofrimento!
Cheguei à plataforma e arrisquei soltar o nó do cadarço pra tentar arrumar a meia ali mesmo, sem nem ligar pros olhares alheios. Num golpe de mestre, consegui me livrar de todo o material, deixei-o todo no braço esquerdo, levantei a perna, apoiei ali nas ferragens da plataforma e consegui puxar uma ponta do cadarço. Mal puxei, e o metrô já se aproximou. Num desespero bem maior do que anterior, imediatamente amarrei novamente o tênis e entrei no metrô como se nada tivesse acontecido.
Por sorte consegui um lugar pra sentar e aí, o alívio foi tanto por estar aquecida e confortavelmente acomodada, que coloquei todo o material no colo e nem percebi mais que estava de meias.
Por algumas estações estava protegida. Soltei meu corpo no banco, fechei os olhos e resolvi seguir viagem sem pensar nem reclamar.

DELÍRIOS EM FLOR

Pensei em tirar férias de mim
e pousar em ti meus muitos sonhos,
meus tantos delírios ainda em flor.

Quis atravessar o portal
e manifestar em teu quintal meu jardim inteiro,
minha alfazema -inspiração de meu poema-
o aroma sutil de meu quase amor.

Um sentimento todo só existe de duas partes inteiras,
a que mora em minha varanda e a que vive no peito seu,
Adormeço agora então, nesta parte que te espera.
Vezes vida, outras quimera,
eternamente EU

domingo, 26 de julho de 2009

Ensaio sobre comunicação e solidão (inconcluso)

O mais profundo é a pele
Paul Valéry



Debaixo da pele o corpo é uma fábrica de ferver
Antonin Artaud


Toda comunicação humana começa e termina no corpo
Harry Pross





Acabei de ler um ensaio no qual Maturana (1999) dizia que o emocionar e o linguajar, anteriores à espécie humana são características de nossa humanização e que a emoção e a conversação são, portanto, os componentes do homem como sistema nervoso desenvolvido e de sociedade como solução de sobrevivência do humano.
O mesmo Maturana define conversação como “um dar voltas juntos de tal forma que todos os participantes passem por mudanças estruturais não triviais até que um homomorfismo comportamental seja estabelecido e a comunicação ocorra”.
Duas linhas abaixo, vejo então, o que eu gostaria de ter escrito, nas palavras do nosso Paulo Freire. Disse ele que as relações pessoais estendem e amarram a emoção, a conversação e o pensamento ao sujeito e à própria humanização, pois, “O sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a co-participação de outros sujeitos no ato de pensar um objeto” e que esta co-participação se dá na comunicação.
Num abrir e fechar de olhos, quase instantâneo, deparei-me comigo, aqui, em pleno século XXI, na efervescência incontestável da comunicação e neste ir e vir, decidi divagar e co-pensar: em que pé estão as relações pessoais hoje? Como as pessoas conversam, se comunicam, se relacionam, enfim?
A primeira idéia que me vem é a de que atualmente sofremos ou gozamos de uma abundância, um excesso de comunicação, proveniente obviamente da fartura de mediadores tecnológicos e suas irresistíveis ferramentas.
Tornou-se muito fácil e muito cômodo encontrar pessoas, lugares e falas, até há bem pouco tempo muito distantes de nossos contextos individuais. Paradoxalmente a estes encontros, no entanto, parece que o fomento a estas buscas tornou-se uma pista do que começo a perceber como uma possível ou até mesmo, visível escassez de percepção de si e do outro, uma vez que parece que nem mais preciso de uma pessoa física, de sentidos e olhares para me relacionar.
Inicia-se, desse modo, uma corrida maluca por atenção, por um carinho, por um trato, por um olhar qualquer em uma estrada dupla: com atalhados virtuais e com caminhos reais. É óbvio que um está no outro, no entanto, parece que a opção pelo contato virtual tornou-se algo mais próximo, imediato e por isso, ‘hoje’, aparentemente mais real. Talvez porque seja esta, a realidade que por já estar pronta, mais se aproxime do ‘olhar’, também ‘pronto’ deste nosso século.
A questão é que, com olhares e mundos já conclusos, resta-me apenas, a adequação e com os olhos destreinados, corro o risco de cegar. Assim, porque já estou acostumado a aceitar ou deletar, a pessoa a meu lado (aquela com quem eu converso até mesmo para ligar o computador ou fazer a manutenção) tornou-se menos importante, dispensável até.
Então, começo minha viagem pelos links todos e pelos chats e pelos sites de relacionamentos, enquanto não percebo que procuro incansavelmente por um “outro” que me toque, que me veja, que me saiba e o que era para ser o “mediador” desta minha busca, passa a ser o “objeto” da relação estabelecida.
Essa corrida desenfreada por alteridade revela, a meu ver, o quanto ausente estamos de nós e o quanto precisamos nos achar, nos relacionar, e ainda, o quanto esquecemos que isso só é possível com um espelho que nos reflita, com um outro que nos revele e que nos faça existir, mesmo que não fale nossa língua, nosso idioma, mas que fale, se expresse, se sinta e que se veja em minha imagem refletida, também o espelho de sua existência.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O POEMA QUE ESCREVI

Preciso te contar do poema que escrevi
Que na madrugada de sábado
Não foi só de lágrima e solidão
Antes um apelo à mulher em mim
Que nessa madrugada deu-me a mão

Preciso te apagar inteiro pra me desapaixonar,
Preciso me fugir de ti, bem longe de todo lugar
Num cantinho qualquer ficar a sós
Viajar para longe da gente e numa xícara
De chocolate quente desatar os nós

Me deixar ficar inteira numa canção
fugir pra um fim de rua, num chalé afastado
Pra Europa, outra casa, outro portão
Outro chat qualquer, outra música enfim...
De carro, ônibus, avião, outra mulher em mim...

Nem mais nome, nem número, te apaguei do celular
Nem mais fome, nem mais medo, hoje vim pra ficar

Parece feio falar do fim, assim,
Mas preciso te contar do poema que escrevi,

Nem pra você, nem pra mim, só pra aguentar
Tudo o que antes era tanto, e hoje apenas uma carta lida
Tanto o que era tudo, e agora apenas uma lágrima solta
Irreconhecida

Antes um presente incerto que uma lembrança acesa
De um passado que por medo não se pôs à mesa.
A lembrança de hoje é o que foi feito do ontem
E o que foi feito de mim e de ti nessa estrada?

É isso que minha poesia torta quer dizer
Quer gritar, quer cantar, quer entrar
Ser bem vinda, mas não só pra você

É que eu te apaguei do celular
e não tenho nem malas pra fazer
E agora que só falta esquecer
Vou lacrar a caixa das lembranças,
Pois ainda não tenho coragem de queimar...

domingo, 3 de maio de 2009

A MULHER CAMINHA

A mulher caminha, olha pro alto, pros lados e se inspira,
Olha ao redor, pra dentro, pra baixo e continua...
Respira fundo, pensa duas vezes, treina paciência...
Dialoga com o comum, com o cosmo, com a ciência,
resiste, alegre ou triste,às vezes incerta,
para pra pensar melhor, pede opinião, treina intuição...

A mulher caminha, quase sempre acompanhada de solidão
Às vezes nem quer... cansa de sangrar...
quer pedir pra descer,pra ficar,pra desistir
Mas o mundo todo finge não ouvir

Em seus ombros, então, o peso de um Hércules,
Em seu ventre agora, o futuro de uma geração inteira,

A mulher caminha, querendo ser apenas uma mulher, como todas
Do mesmo modo que o homem é apenas um homem, como muitos.